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Bom Despacho (MG), 20 de novembro de 2017

Por que a Copasa deve mesmo sair de Bom Despacho

Números apresentados nos Quadros 1 e 2 mostram a má qualidade do serviço em BD
Publicado em 13/11/2017 13:19:27

FERNANDO CABRAL - Paciência, compreensão e espírito conciliador são atributos positivos de cidadãos, políticos e empresários. No entanto, paciência em excesso vira omissão; compreensão em excesso vira tolerância. Espírito conciliador em excesso vira condescendência. Depois de anos de paciência, tolerância e tentativas de conciliação com a Copasa, é hora de Bom Despacho tomar novos rumos. Décadas de espera, tolerância e renegociações só trouxeram resultados negativos para nossa cidade.

A Copasa inaugurou seus serviços em Bom Despacho no dia 1º de junho de 1978.

Antes da Copasa, nossa água tinha má qualidade e era insuficiente. Nossa água, barrenta, vinha do Córrego dos Bertos. Água limpa, só da Biquinha, transportada na cabeça, em potes de cerâmica e em latas de 18 litros.

A Copasa chegou com água abundante e de boa qualidade. Por isto foi recebida com elogios e fanfarras.

No início houve muitas melhoras. A rede de água foi estendida para a cidade toda e a rede de esgoto começou a ser instalada. Depois veio a estagnação.

Quando a Copasa se instalou aqui, nossa população era de 29.000 habitantes. Hoje, nas contas do IBGE, somos 50.046. Nas nossas contas, somos 65.000. Apesar deste crescimento da população, a Copasa continua usando, basicamente, a mesma estrutura que tinha em 1978.

É deste atraso, desta falta de investimentos, que vem a falta d’água que enfrentamos hoje.

Estiagem ou imprevidência?

A Copasa vem tentando justificar a falta d’água como fato fora do seu controle. Na propaganda que ela tem feito, a culpa seria da estiagem, um acontecimento imprevisível e incontornável.

Não há dúvida de que há estiagem. No entanto, este não é um fato imprevisível. A chuva não sumiu inesperadamente de um mês para outro. Ela veio diminuindo ano a ano. Era previsível e foi prevista.

A população também não cresceu da noite para o dia. Ela cresceu devagar. Num ano havia 400 pessoas a mais, no ano seguinte 500, depois 600. Foi assim que, pouco a pouco, crescemos de 29 mil para 50 mil almas. Portanto, o aumento da demanda por água era previsto e calculável.

Nós não vivemos no deserto. Aqui temos o Rio Lambari a menos de 10 quilômetros da atual estação de bombeamento. A Copasa poderia fazer transposição de bacia. Aqui temos o São Francisco, a menos de 30 quilômetros. A Copasa poderia buscar água dele. E, na pior das hipóteses, poderíamos ter perfurado poços artesianos para abastecimento emergencial.

No entanto, a Copasa não fez nada disto. Não tomou nenhuma iniciativa. Não tem planos. Não tem projeto.

Portanto, o problema não é de estiagem, é de imprevidência. Imprevidência combinada com ganância.

Ganância demais faz mal

Todos conhecem a história do homem que matou a galinha dos ovos de ouro. A lição que esta fábula nos deixa é simples: quem não tem paciência para esperar o ovo de ouro que a galinha bota a cada dia acaba sem o ovo e a galinha. É isto que a Copasa está fazendo: matando sua galinha dos ovos de ouro.

Nos últimos 40 anos a empresa transformou seu faturamento em lucro. Lucro que entregou ao Governo de Minas e aos investidores americanos. Entregou os lucros com tal prodigalidade que se esqueceu de investir para manter viva sua galinha de ovos de ouro, que é sua capacidade de fornecer água.

A empresa passou 40 anos sem investimentos significativos.

É bom lembrar que as melhorias que aconteceram nas últimas décadas em Bom Despacho não vieram da Copasa. Por exemplo, as estações de tratamento de esgoto foram pagas pelo Governo Federal por intermédio da CODEVASF. Não foi a Copasa que pagou. Apesar disto, ela atualmente fatura cerca de R$ 9 milhões por ano com este investimento que não fez.

Mas não é só isto.

A Copasa é caloteira. Desde 2009 deve R$ 4 milhões à prefeitura. Não paga.

Apesar de deixar o bom-despachense sem água, apesar de não pagar o que deve e não fazer o que precisa, semanas atrás a Copasa anunciou um lucro espetacular de R$ 150 milhões no trimestre.

Isto é falta de sensibilidade. Fazer festa com sua riqueza, enquanto seus clientes estão sem água na torneira.

E para juntar insulto à injuria, nas últimas semanas o bom-despachense que lê o G1 encontra lá uma caríssima e acintosa propaganda da Copasa. Se “faça chuva ou faça sol”, ela trabalha para todos os mineiros.

Ao que parece, dinheiro para os acionistas e para propaganda ela tem. O que falta é dinheiro para investimentos.

Copasa x SAAE Lagoa da Prata

Os números não mentem. Por isto comparamos o desempenho da Copasa em Bom Despacho com o de dezenas de outras cidades que não têm a Copasa. Ela não ficou bem na foto. Um exemplo está na comparação com Lagoa da Prata. Lá o serviço é prestado por uma autarquia municipal, o SAAE. Um resumo do resultado pode ser visto no quadro ao lado. O que ele mostra é que a Copasa é uma empresa cara, ineficiente e empreguista. E nós pagamos por isto.

O Quadro 1 resume a evolução da empresa na cidade de 2009 a 2015. No período, a população cresceu 9,71%, mas o consumo de água diminuiu 16,96%. O interessante é que o número de empregados subiu 38,71%. Já o faturamento com água subiu 65,07% e o faturamento com esgoto, 137,34%. No total, a receita da empresa pulou de R$ 8,3 milhões em 2009 para R$ 15,3 milhões em 2015. Um resultado excelente para quem não investiu nenhum centavo. (Estes números são do SNIS, do Ministério das Cidades).

O Quadro 2 completa a fotografia e mostra mais ineficiência e altos custos. Basta ver os números. Enquanto em Lagoa a produção de 1.000 litros de água custa R$ 0,74. em Bom Despacho custa R$ 2,97. Ou seja, quatro vezes mais. Lá, em média, o metro cúbico de água chega ao consumidor por R$ 1,52; aqui, chega por R$ 3,40.

Apesar de aqui tudo ser mais caro do que em Lagoa, a situação financeira da Copasa é bem pior do que a do SAAE de Lagoa. Basta comparar os indicadores de desempenho financeiro: o da Copasa é 104,64% o do SAAE, 164,09%.

A Copasa deve sair

A Copasa não tem condições de fazer os investimentos que precisam ser feitos com urgência. Por isto precisa sair de nossa cidade. Precisamos substituí-la por uma empresa que tenha competência técnica, vontade, e capacidade financeira para fazer frente às demandas.

É neste sentido que a prefeitura está trabalhando agora. A Copasa será convidada a retirar-se da cidade. Se não quiser sair por bem, terá que ser tirada à força.

Já fomos por demais pacientes, tolerantes e conciliadores. Não adiantou. Agora é hora de reunirmos novas energias, definirmos novos rumos e partimos para o enorme trabalho que precisa ser feito para que seja afastado de vez o risco de que volte a faltar água no futuro. E não só isto: temos que garantir que 100% do esgoto seja tratado, o que hoje não está acontecendo.

Fernando Cabral é advogado, auditor federal e prefeito reeleito de BD



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