iBOM | O Saci, o Haloween e a juventude da nossa Bom Despacho



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Bom Despacho (MG), 20 de novembro de 2017

O Saci, o Haloween e a juventude da nossa Bom Despacho

Publicado em 09/11/2017 18:08:11

DENISE COIMBRA - Esta crônica foi motivada por duas contrariedades. A primeira delas foi saber que a festa de Haloween, importada dos “States” vem ganhando força no Brasil, a ponto de quase ninguém mais lembrar-se da lenda brasileira mais conhecida: o Saci Pererê. Surgido dos povos indígenas que viviam no Sul do Brasil, o Saci é representado por um menino indígena de cor morena e com um rabo, que vivia aprontando travessuras na floresta. À medida que o tempo passou e suas histórias foram em direção ao Norte do país, o Saci mudou de cor morena para negra, perdeu uma perna e o rabo e ganhou um gorro vermelho. Monteiro Lobato e Maurício de Souza também o retrataram em suas deliciosas histórias infantis.

Famoso pelo seu comportamento divertido e brincalhão, o Saci ficou conhecido pelas suas travessuras nas matas e nas casas. “Dar nó em crina de cavalos, esconder brinquedos de crianças, bagunçar roupas de cama, apagar o fogo de fogões à lenha e assustar viajantes” tornaram-se a marca registrada de sua lenda espalhada por todo o Brasil.

Já a festa de Haloween foi introduzida no Brasil sabe Deus quando e por qual escola de inglês que deve tê-la incluído no calendário de festas para seguir o ritual americano. Qual ritual americano? O de comprar, comprar, neste caso as guloseimas! Triste escolha! Lamentavelmente, até mesmo as escolas públicas já incorporaram esta ideia. Eu torcendo para que resistissem e produzissem histórias, peças teatrais engraçadas e atividades lúdicas e educativas repletas de travessuras, dignas do Saci Pererê e do espírito brincalhão dos brasileiros, que ainda resiste espalhado pelas cidades e no interior do Brasil. Ainda que esse esteja mal das pernas, cérebro e braços, haja vista a união dos poderes para quebrar o país e o povo brasileiro.

A segunda contrariedade? Foi saber da escolha de um grupo de jovens de nossa cidade. Uniram-se para mandar fazer um outdoor de um candidato a presidente, com ideias abomináveis. Vindo da juventude, isso é estarrecedor! Onde eles estavam nas aulas de Sociologia e História? Durante o jantar ou café da manhã em suas casas sobre o que conversavam? Há alguns meses, um jovem convidou-me para participar do projeto de abertura de um cine clube em Bom Despacho. Haveria a exibição de filmes e logo após, eles seriam comentados. Eu vibrei! Eu já tinha até escolhido o filme que eu iria comentar: Into The Wild (Na Natureza Selvagem). Nunca mais me procurou. Recomendo o filme aos jovens que decidiram pagar do próprio bolso o outdoor do inominável candidato. Em pleno século XXI, querer como presidente do Brasil um defensor da violência contra as mulheres, os homossexuais e pregações racistas, assusta-me profundamente. E ter adesão dos jovens é ainda mais aterrorizante. Pergunto-me: onde falhamos? Não conseguimos dar o devido conhecimento para a juventude do que foram os governos fascistas em todo o mundo? Eles sabem como surgiu o nazismo? Ao declarar o seu voto contra a então presidente, o tal candidato, que é deputado há 26 anos, dedicou-o a um violador dos direitos humanos e do estado democrático de direito durante a abjeta ditadura! Saber disso não os deixa indignados? Com o que esses jovens querem tapar o vazio existencial? E construírem o seu futuro e o futuro de nosso país? Não deveria ser propagandeando o defensor de ideias tão virulentas e tacanhas. Jovens em pleno florescer da vida, já impotentes em buscar alternativas, preferencialmente pacíficas, quiçá utópicas, inclusive a opção de buscar candidatos mais jovens? Quem sabe criariam novas bases para a política no Brasil em oposição ao modelo vigente, tão antigo quanto nefasto? Deveriam freqüentar cinemas, fazer parte de grupos de teatro ou música. Além de realizarem e conduzirem debates, rodas de conversas nas praças e nas escolas em nossa cidade. Eis o protagonismo juvenil que o Brasil tanto necessita! Sugiro que conversem também sobre o racismo, xenofobia, homofobia, e sobre a juventude, é claro! Precisamos conversar com nossos jovens sobre política, direitos humanos, arte e diversidade. 
O que esses jovens sabem sobre o folclore brasileiro?E sobre o papel dos mitos e das lendas na formação da cultura brasileira? Porque o Saci começou índio e depois ficou negro? Será que querem mesmo eleger o Voldemort para governar esse país? Ou perderam a capacidade de sonhar? Meu desalento é o fato de que fomos nós que educamos esses jovens. Espero que não haja nenhuma adolescente que defenda ou admire esse a quem me recuso pronunciar o nome. Passo a ter um pouco de esperança de que elas já entenderam o perigo que essa candidatura representa contra nós, mulheres. 
Mais para caça às bruxas do que para Festa de Haloweem, são as ideias deste candidato. E é aí que mora o perigo em relação aos valores democráticos e de cidadania tão pouco valorizados e discutidos com nossas crianças e jovens, eu presumo, depois dessa ideia publicada no Facebook.

Um dos líderes dessa iniciativa informou que o valor de 25 reais é o que cada jovem está bancando do próprio bolso para colocar o outdoor em nossa cidade. Não sei quantos jovens aderiram a esta proposta. Ao escrever este texto, fiquei me perguntando se estes jovens disporiam deste mesmo valor para comprarem livros que ocupariam os espaços vazios de suas estantes e que expandiriam suas mentes para muito além de Bom Despacho e dos “States” e os projetariam para muito além da pequenez das ideias que representam o outdoor anunciado.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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