iBOM | Os jovens de BD estão bebendo cada vez mais cedo?



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Bom Despacho (MG), 11 de dezembro de 2017

Os jovens de BD estão bebendo cada vez mais cedo?

Imagem ilustrativa
Publicado em 11/10/2017 10:41:25

DENISE COIMBRA - Nesta semana fui procurada por uma mãe angustiada com o uso abusivo do álcool pela filha de 14 anos. Coincidentemente, no mesmo dia, este assunto foi discutido com meus alunos. Não sou especialista neste tema, contudo, acompanhei inúmeros jovens e adultos em clínicas de recuperação e no consultório particular ao longo da minha trajetória como psicóloga. Fui testemunha do intenso sofrimento individual e familiar perante o alcoolismo ou o uso abusivo do álcool.

Sensibilizada pela angústia dessa mãe e incentivada por uma amiga, decidi escrever um pouco por causa da minha experiência, mas também pela importância do tema na atualidade. Para ilustrar melhor este texto, ao longo da semana conversei com jovens de 13 a 17 anos que bebem em casa, nos bares, festas, sítios e ranchos nos arredores de nossa cidade.

- Por que você bebe? Foi a pergunta que lancei para todos.

- “Fica difícil escapar da pressão dos amigos. Todo mundo bebe e me cobra também!”

- “Para me divertir.”

- “Porque fica mais fácil chegar nas meninas.”

- “ Na minha casa todos bebem e muito”.

- “Ninguém nunca me impediu de beber.”

- “Em Bom Despacho... o que mais temos para fazer, a não ser beber?”

Sem menosprezar os fatores genéticos e o fato de que algumas pessoas estão mais propensas a desenvolver o alcoolismo, pretendo focar os aspectos psicossociais que influenciam no consumo da bebida alcoólica pelos jovens. O mais citado por eles: a pressão dos amigos e das amigas para que eles bebam e por isso sentem dificuldade de recusar o convite. A segunda mais citada foi a falta de limites sociais ou familiares para que eles tivessem o primeiro contato com a bebida.

Acrescento a esses dois aspectos o sentimento de onipotência, próprio da adolescência e a falta de controle na oferta e consumo de álcool, mesmo sendo proibida a venda e o consumo para menores de idade. Entretanto, mais do que proibir é preciso entender.

As estatísticas de morte e violência envolvendo jovens embriagados ou jovens alcoólatras, quando comparadas com os usuários ou viciados em drogas, é significativamente maior, ao contrário do que muitos pais pensam e temem. Pergunto: os jovens estão bebendo cada vez mais cedo? Porque uns viciarão e outros não? Porque combatemos o uso das drogas, e aplaudimos muitas vezes, os “porres” ou as disputas envolvendo uma grande quantidade de álcool a ser ingerida por eles, como símbolos ou sinais para que se tornem homens potentes e vigorosos? Isto sabendo que a exposição excessiva e duradora poderá torna-los impotentes em todas as facetas da vida. Como pai, marido e, quiçá amigo. Muitos se isolarão ou serão isolados, na medida em que suas atitudes comecem a incomodar. Quem não tem uma história assim para contar? A reflexão e a pergunta se referem às jovens também! Elas têm bebido tanto ou mais que os rapazes e isso precisa ser compreendido!

No consultório pude conversar com meus pacientes sobre as razões que os levaram a desenvolver uma relação tão intensa com a bebida alcoólica, a ponto de colocá-la em primeiro lugar em suas vidas, em detrimento do cuidado consigo mesmo, com o trabalho, a família e os vínculos sociais. Minha experiência clínica apontou para a singularidade, o modo peculiar com que cada adulto ou jovem vivenciou a sua infância, o relacionamento com os pais ou pessoas influentes ao longo de sua vida. Destaque também para o valor social dado à bebida, tal e qual um “batismo” para o pertencimento e aceitação em grupos de convivência como determinantes para desencadearam o uso abusivo do álcool em todos os que pude escutar.

O que eu respondi àquela mãe? Experimente perguntar à sua filha sobre seus sonhos, desejos, mas também sobre as dificuldades nos relacionamentos familiares, na escola e com os amigos. Se ela não conversar com você, pergunte se ela gostaria de procurar uma pessoa de confiança dela ou um profissional para que ela possa contar sobre o que está acontecendo.

Historicamente ou por experiência própria sabemos que o uso da bebida alcoólica, independente da idade, sempre foi utilizada porque altera o estado de consciência e a percepção do que estamos vivendo. Do que ela está querendo escapar ou evitar? O quão insuportável pode estar sendo a realidade para ela, a ponto dela ingerir o álcool em doses tão elevadas? Esta é uma resposta que somente a jovem poderá obter. Entretanto, poderá apontar para uma pergunta que talvez poucos de nós estejamos dispostos a fazer: o que não estamos fazendo para evitar que os jovens comecem a beber cada vez mais cedo?

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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