iBOM | O selo por tanto tempo esquecido dentro do caderno



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Bom Despacho (MG), 22 de outubro de 2017

O selo por tanto tempo esquecido dentro do caderno

Selo "Olho de Boi"
Publicado em 11/08/2017 21:28:53

DENISE COIMBRA - No primeiro dia de agosto, no centro da cidade, encontrei-me com a mãe de um amigo. Assim que me aproximei ela perguntou: - Que história é essa da mulher de cabelos cor de fogo que li no jornal? - Nunca ouvi falar nesta história aqui na região. Você inventou, né? Antes que eu lhe perguntasse se ela acreditava em todas as histórias que ouvia ou lia, ela estendeu-me o braço e pediu-me que a acompanhasse até o supermercado. Enquanto caminhávamos ela contou-me a seguinte história:

“- Quando minha mãe era menina, ela freqüentava a escola de D. Maria Guerra no Engenho do Ribeiro para ser alfabetizada. Um dia, logo após a aula, minha mãe percebeu um selo em cima da mesa e apaixonou-se por aquele pedacinho de papel. Num gesto rápido e impensado, ela guardou o selo dentro do caderno e foi embora. Naquele dia, a minha avó adoecera e o meu avô, desesperado, foi embora com a família, em busca de cuidados médicos. Minha mãe nunca mais voltou naquela escola.

Entretanto, ela era muito inteligente e curiosa e queria aprender a ler o mundo. Queria também ser professora, como D. Maria Guerra que lutou para ensinar sem preconceito e com muita dedicação a todos que a procuravam. Anos mais tarde, minha mãe voltou a estudar e formou-se professora.

Numa viagem a Paris, ao visitar o Museu do Louvre, ela deparou-se com uma peça de argila, conhecida, como tábula. Foi a primeira carta escrita no mundo, datada do Século XVIII a. C. Ao ver aquela peça, uma lembrança antiga veio à tona: o selo que havia guardado no velho caderno da sua infância. Por tanto tempo esquecido e tão distante.

Desde então, tornou-se filatelista e descobriu que o primeiro selo do mundo foi emitido pela Inglaterra em 1840, embora haja controvérsia. Os italianos afirmam já utilizarem cartas seladas bem antes. No Brasil, o selo passou a ser utilizado no dia primeiro de agosto de 1843. Ela aprendera também que os primeiros selos foram denominados Olhos de Boi pela semelhança com os olhos do animal. Atualmente cobiçados no mundo inteiro.

Soube nesse dia que o selo em seu caderno era um desses. Raro e valiosíssimo. Não ficou alegre por isso. Ele fora roubado da casa da melhor professora que ela conhecera em toda a sua vida. Incansável, D. Maria Guerra, educava com firmeza e muita amorosidade, principalmente aqueles que tinham mais dificuldade no aprendizado. Minha mãe nunca havia contado sobre o roubo para ninguém.

Entretanto, pouco antes de morrer ela contou-me essa história. Disse-me também que aquele selo era um símbolo, uma espécie de passaporte que lhe dera acesso ao mundo. Do conhecimento, da historia, do ensino e aprendizagem. Mais do que isso, aquele pedacinho de papel representava uma lembrança de que aquela senhora tão generosa oferecera a ela o selo precioso da cidadania: a sua alfabetização. E, por meio dela, a sua futura libertação e independência. No início do século XX, no Vale do Picão, tal fato era uma preciosidade.”

Ao chegarmos à porta do supermercado, emocionada, eu a interrompi e disse-lhe que o Geraldinho do Engenho publicou, recentemente, o livro Semente Centenária sobre os cem anos da Escola Maria Guerra e outras lindas histórias. Contei-lhe também que minha mãe, tal e qual a dela, fora alfabetizada pela Professora Maria Guerra. Despedimos-nos alegremente. Ao chegar em casa contei para minha mãe a inusitada história que eu acabara de conhecer. Imediatamente, ela abriu uma caixa e entregou-me um papel velho, amarelado. Espantada reconheci o destinatário! Irrequieta, comecei a ler a carta...

Nota: Este texto é uma homenagem ao dia do selo postal brasileiro comemorado no dia 1º de agosto.

Denise Coimbra é psicóloga e escritora



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